Na Bolívia de Rodrigo Paz, chefe do Supremo foge do país após mandado por tráfico
O presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Bolívia, Romer Saucedo, de 38 anos, deixou o país nesta quinta-feira (5 de novembro), um dia depois de o Ministério Público boliviano anunciar uma ordem de prisão contra ele por tráfico de substâncias controladas e associação criminosa. Saucedo comanda a mais alta corte do país desde janeiro de 2025.

O procurador-geral interino, José Armando Urioste, informou que o Ministério Público vai pedir à Interpol a emissão de um alerta vermelho para localizar o magistrado. Segundo as investigações, Saucedo responde a pelo menos dois procedimentos. O papel atribuído a ele no suposto esquema não foi detalhado, e os processos correm sob sigilo.
Saída sem registro
De acordo com o Metrópoles, os registros migratórios mostram que Saucedo entrou na Bolívia na terça-feira (3), sem nenhum registro posterior de saída. As autoridades suspeitam que ele tenha deixado o país por via terrestre. O destino não foi divulgado.
O vice-ministro do Interior, Peter Maldonado, relacionou a saída do magistrado ao caso do ex-procurador-geral Roger Mariaca. O presidente Rodrigo Paz, em declaração feita na Espanha, afirmou que Saucedo deixou o país em meio a acusações e investigações ligadas ao Judiciário.
O Supremo vai aguardar seis dias pelo retorno de Saucedo antes de escolher um novo presidente. Enquanto isso, a ministra Rosmery Ruiz ocupa interinamente o comando da corte. Se ele não voltar dentro do prazo, pode perder o cargo.
A versão do magistrado
Em nota e em publicações no X, Saucedo afirmou ser alvo de perseguição política do governo de Rodrigo Paz e disse que vão "forjar provas" contra ele. Ele alegou ter saído do país por causa de ameaças de morte e citou o assassinato do juiz Víctor Hugo Claure, morto a tiros em Santa Cruz em abril de 2026. "Mataram-no porque afetou interesses de corruptos", escreveu.
Saucedo nega ter renunciado e diz que voltará quando a segurança dele e da família estiver garantida. "NÃO VOU RENUNCIAR AO CARGO QUE ME DEU O VOTO DO POVO CRUZEÑO!", publicou. Ele não comentou o mérito das acusações e disse esperar que novos processos sejam abertos contra ele.
A ofensiva contra o narcotráfico no Judiciário
O caso de Saucedo faz parte de uma série de prisões de integrantes do sistema de Justiça boliviano por suspeita de ligação com o narcotráfico desde outubro. O principal deles é o procurador-geral Roger Mariaca, preso em Santa Cruz de la Sierra suspeito de usar o cargo para favorecer organizações criminosas. O promotor Alberto Zeballos também foi detido. Segundo o governo, 14 pessoas foram presas na operação.
A prisão de Mariaca ocorreu dois dias depois de os Estados Unidos revogarem os vistos dele e de outras autoridades latino-americanas, em meio a acusações de corrupção e vínculos com o narcotráfico. Os americanos acusam Mariaca de receber propina para facilitar o tráfico de drogas.
Na operação, quatro pessoas foram detidas numa ambulância que saiu de madrugada de um imóvel ligado a Mariaca, carregando bolsas e pacotes com dinheiro. A contagem chegou a 3.532.100 bolivianos e 10 mil dólares. O Ministério Público vai investigar a origem do valor.
O ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo, afirmou que foi desmantelada uma organização criminosa infiltrada no Judiciário e no Ministério Público, que buscaria proteger o narcoterrorismo. As acusações ainda vão passar pelo devido processo legal.
O presidente da Suprema Corte de um país vizinho foge para não responder por tráfico de drogas, enquanto o procurador-geral já está preso. É o retrato de até onde o crime organizado consegue chegar quando se infiltra nas instituições, e um alerta que o Brasil, que divide uma fronteira enorme com a Bolívia, não pode ignorar.
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Fontes: O Antagonista e Metrópoles — ver reportagem original
Advogado, jornalista independente e comentarista político. Saiba mais · YouTube


